Por que contamos histórias?

Por Marcelo Ramos

Fonte: Brasil Escola

Uma vez, em um dia quente, eu resolvi que iria sair. Me preparei, mas mudei de ideia e fiquei em casa. Fim da história. E é uma história horrível. Mas por que é uma história horrível? A resposta pode parecer um tanto quanto simples, mas é muito além do que pensamos: não há nela elementos com os quais nos identificamos, nenhum sentimento, nada humano. E por que isso é importante? Porque são essas questões humanas que tornam uma história no mínimo interessantes para nós. Mas  afinal por que precisamos de histórias? 

O início 

O Homo sapiens sempre contou histórias. Observe a pintura abaixo: 

Fonte: Superinteressante

Datando de aproximadamente 44 mil anos atrás, a pintura ilustra o que parece ser uma cena de caça. O mais provável é que foi feita com o intuito de informar, de contar para que quer que visse, uma experiência passada. Em suma, uma história. 

Contamos histórias antes mesmo de existirem formas de escrita. Como um animal, o ser humano é suscetível à natureza e seus perigos, e, sinceramente, somos seres que não possuem nenhuma vantagem física para nos defender: somos macacos pelados sem garras nem dentes para nos defender de predadores, e se não fosse por habilidades intelectuais, estaríamos muito abaixo na cadeia alimentar. Nossa vantagem está, justamente, no caráter intelectual. Possuímos um sistema de linguagem mais aperfeiçoado que dos demais animais, uma capacidade de passar aos nossos descendentes aquilo que sabemos, os perigos do mundo. Se, por exemplo, o pai de um adolescente que viveu à 44 mil anos atrás não pudesse dizer: "Clarêncio, meu filho, não vá para aquele lago, você vai ser devorado. Fique por aqui e cace naquela mata, é segura, confia no pai", Clarêncio provavelmente iria ser presa do animal mais próximo. 

O poder da história reside no fato de que ao nos fazer sentir comoção pelo próximo, ela consegue nos fazer adotar certo comportamento.  

A visão em storytelling

Em 1944, cientistas atuantes na The Smith College elaboraram um experimento, conhecido como The Heider-Simmel Ilusion, no qual, como o vídeo mostra, figuras geométricas eram colocadas em um filme, mostrado para 34 pessoas, e ao final, os pesquisadores perguntaram o que as pessoas viram. Apesar de nenhuma forma geométrica possuir características como fala, motivação, aparência, ou qualquer característica humana, a maioria das pessoas inventou uma história, sentimentos, motivações, ou qualquer outra coisa que justificasse o filme. 

E isso faz todo sentido: quem de nós nunca inventou uma história para explicar um fato? Quem de nós nunca transformou algo em uma história para entender melhor algo? É natural. As histórias nos fazem assimilar os fatos por atribuírem valores que entendemos a coisas que não têm tais valores. Por exemplo, as fábulas, inúmeras fábulas que possuem como protagonista um animal, que não possui uma característica boa como a humildade, a esperteza, a bondade, entre outras, e que ao passar por certo problema, precisa aprender. Provavelmente, o pai de Clarêncio teria tido mais sucesso com sua história se o protagonista dela acabasse mesmo se dando mal, e aprendesse uma lição, tivesse uma moral. Assim, Clarêncio iria sentir que ganhava algo com a história do pai, e a guardaria por mais tempo. 

O storytelling, como é chamada a característica de atribuir uma narrativa a certos fatos, ajuda-nos a manter certas coisas vivas na memória, a aprender lições, a nos manter vivos.

O poder das morais

Nosso cérebro não irá guardar nada que não seja útil para nós. E como saber se algo é útil? Simples, mostrando que alguém conseguiu algo na prática com essa coisa. Então, surgem as morais. Como dito antes, uma história é mais eficaz se possui uma moral. E sem elas, a raça humana, provavelmente, não teria a facilidade que tem em se adaptar. Duraríamos bem menos. 

E é por isso que contamos histórias. Elas nos mantêm vivos, nos faz sentir vivos. Elas transmitem nossa essência, a essência daquilo que fomos, dos erros que cometemos e que não podemos mais cometer. Elas são o código genético da humanidade, nosso patrimônio. Contamos histórias pois, sem elas, não somos o melhor que podemos ser. O ser humano deixa de ser humano.   

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